Hora Legal II
Aqui nestas águas furtadas, de trapeira redonda e janela basculante, passo os meus dias também no céu, três andares acima das ruas. Daí o sentir-me algo pássaro, de voo que apesar de baixo é voo, de pio que apesar de mudo diz. Eu a andorinha e a pomba, que entretanto se calou, somos, neste telhado, uma trindade moderna: a andorinha espírito santo inspirador; a pomba voz de deus; eu olhando da trapeira filho aqui posto para testemunhar presenças.
Assim, e pela santidade do dia, escrevo a linha testamento, nem velho, nem novo, apenas hoje. E fico enclausurado na trapeira a ver o mundo redondo como afinal ele é, esperando serenamente o frio que virá inexoravelmente. Vai restar a memória da asa negra, a voz da pomba cinza e as letras, incolores, essas que não desistem de se escreverem umas às outras.
